quinta-feira, 8 de março de 2012

Correr sem cair do salto

Os ponteiros mal cruzam a linha das seis da manhã. E ela levanta. Pouco tempo pra escovar os dentes. Tem uma ‘maratona’ pela frente... Acorda os filhos, cutuca o marido estirado na cama, prepara o café, põe a ração do cachorro, avisa os pequenos que vão se atrasar, troca de roupa, lembra daquela providência, faz a lista do supermercado, apressa o maridão no chuveiro, deixa um bilhetinho pra empregada, faz um check-out na bolsa e... Fica de-sa-cor-ço-a-da: a criançada ainda tá deitada!
A vida dessas mulheres é uma correria logo de manhã. E olha, muitas ainda encontram tempo e disposição pra calçar os tênis e ir cumprir mais uma etapa da planilha de treino. Depois de despachar a turma de casa e antes da jornada de trabalho. Não param de correr! Sabe de alguém com uma rotina parecida??? Eu conheço algumas...
Hoje, oito de março e em pleno meio de semana, não será diferente para a maioria delas. Nem no Dia Internacional da Mulher, elas diminuem seu pace. Convido você, então, para (tentar) acompanhar comigo o percurso na vida de três dessas mulheres de passadas determinadas. Cada uma de um canto desse nosso Brasil. Separadas por centenas de quilômetros. Unidas por inúmeras semelhanças. Apresento: Ciça Rodini, paulista de Piracicaba e gerente administrativa... Shirley Klautau, psicóloga de Belém do Pará... Carmem Oliveira, advogada que vive na capital gaúcha. Três jovens mulheres maduras, mães de crianças em fase efervescente, profissionais atuantes, corredoras inveteradas e casadas... Com maridos não integrados à tribo running. É possível conciliar tudo isso numa vida só? Vamos ver...
Nossas personagens começaram a correr há poucos anos, já com família constituída. Saúde física e mental foi o principal motivo pela escolha do esporte. A endorfina prazerosa o maior combustível. Barreiras pela tri-função (sic) mãe/esposa/profissional? Nem pensar! Bah, mas se o problema é tri, melhor saber os escapes da gaúcha, tchê. Carmem usa a criatividade pra aproximar a família do seu hobby. “Estimulo a caminhada (primeira fase antes dos trotes e corrida pra valer), especialmente, com minha filha. Sempre paramos no meio pra um suco, a princípio esse é o motivo dela ir comigo, mas o hábito do exercício vai se criando”. No final das provas, também não falta um bom chimarrão. E gaúcho sabe o quanto isso atrai quem corre e quem assiste. Tai bom motivo pra família ‘brindar’ junta a proeza da mamãe. Agregar outros elementos atrativos à corrida pode ser o impulso certo.


O longão pega fogo em pleno verão paraense. Só que Shirley parece estar em outro mundo. A cabeça também não pára. Pensa em tudo, até naquela famigerada lista do supermercado. Entretanto, essa psicóloga descobriu sua forma de ajuste simples: “Como gosto muito do que faço, acerto meus horários e corro atrás dos objetivos”. Na cola vem o esposo. Ele desistiu de correr a pé (bem que tentou durante um tempo), mas não de acompanhá-la de perto. Em treinos assim, por exemplo, assume a bike e o papel de staff. Descobriu que gosta mais de pedaladas que passadas. E a parceria se mantém unida mesmo a bordo de ‘transportes’ distintos.
Éééé, não basta ser marido, tem que participar. E como tem marmanjo ‘correndo’ dessa máxima. Mas as runners perseveram e não desistem. Maior preocupação é com quem deixar os filhos. Ciça usa seu jeitinho de boa publicitária de formação e promove, a cada prova, o dia ‘Papai, curta as crianças’. Funciona! Eles jogam por horas, fazem atividades escolares, assistem filmes... Enquanto Ciça transpira sobre o asfalto. E tem mais: “Quando consigo, junto todos para uma caminhada como fizemos ontem (véspera desta entrevista). Foi delicioso. Terminamos com um café da manhã junto a outras famílias participantes do evento”. Olha o ‘passo a passo’ mais lento servindo de novo como aliado.
Cada vez mais as corridas se vestem de rosa. Várias já são até exclusivas delas como os Circuitos W-Run e Vênus. E mulher sem vaidade, você já sabe, não combina. A paraense me conta que a corrida a faz “relaxar, conhecer pessoas e ficar lheeendaaaaaa”. O ‘estar’ bonita começa, realmente, pela disposição. E elas não perdem nunca isso. Mesmo tendo de improvisar. O cabelo é a maior preocupação. “Eu prendo o meu de forma que, quando suar, possa jogar água sem desarrumar muito”, conta Shirley. Companheirão é o boné nessas horas. Em dia de corrida, Ciça só tira o dela na hora de tomar banho. Ah, e a advogada gaúcha também defende rosto e corpo com muito protetor solar, os lábios com batom especial e os olhos com óculos escuros: “Esses detalhes fazem muita diferença”. Todas falam a respeito sorrindo, sem medo de serem felizes. E lindas!


Histórias pelos asfaltos da vida se multiplicam. A paulista já construiu novas e concretas amizades. A maior delas foi durante um momento-desastroso quando, em meio a tropeços, não conseguia ajustar seu MP3 no início de certa prova. A nova amiga veio, ajudou, correu junto e acompanha Ciça até hoje dentro e fora da pista. Também ouvindo música, Carmem quase pôs fim a uma ‘parceria amiga’. Na hora de molhar o corpo esqueceu que nem todo iPod é a prova d’água. Mais hilária foi a relação de Shirley com seu aparelhinho. Absolutamente desgastada e ainda faltando uns 4km para o final daquela meia-maratona, ela apelou para o auto-deboche. “Comecei a imitar a cantora da música que tocava. Imagina: estourada e dançando sem parar de correr. Várias pessoas olhavam e eu nem aí. Até um senhor achou que eu estava passando mal e tascou água na minha cabeça. Foi uma atitude cuidadora, eu sei, mas depois refleti sobre meu comportamento e imaginei quão louca devo ter parecido”, conta rindo. Histórias emocionantes, estressadas ou desvairadas, o maravilhoso de quem encontrar amor no que faz é escrever o ‘novo’ a cada dia. Nem que seja o ‘velho’ desenhado de outras formas.
E, além de ter muito que contar em casa, o que mudou na vida dessas mulheres depois de assumirem as passadas firmes? A lista é enooooormeeee. A nortista garante que aumentou sua disposição e auto-estima, agora é muito mais feliz. A corredora do sudeste passou a dormir melhor, conhece mais seu próprio corpo, ampliou o circulo de amizades e cria oportunidades de distração saudável a cada desafio. Já a sulista lembrou o lado mau da moeda: as lesões. “As corridas estão servindo para eu ver que o corpo precisa de cuidados especiais, estou mais atenta e fortalecendo meu físico”.
Carmem, Ciça, Shirley, mas também poderia ser Camila, Fernanda, Graciela, Lilian, Márcia, Renata, Vanessa... Tantas mulheres que nem se conhecem, mas possuem muito (verdade, MUITO!) em comum. Como o prazer de fechar os olhos para o sono a noite e ter a certeza que, amanhã, a luz vai brilhar em um dia novo... E deliciosamente corrido!

Mulheres no Esporte
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